segunda-feira, 18 de maio de 2015

Farewell, Adam (1960-2015)



Today I write in English in honour of Adam Kilgarriff. It was a shock to hear the news of his passing.  
Adam was a renowned linguist, working with language corpora, word frequency distributions and corpus interfaces, among many other things. I first knew Adam in Oslo, Norway, in a Euralex conference. He was a charming, lively keynote speaker with a great sense of humour. 
I had the honour of meeting him personally in September 2012, in Galtür, Austria, in Lexicom 2012, one of many workshops of LexMC.
Today, my thoughts are with his family and friends. 

Farewell, Adam, you will be truly missed.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Viver em guerra sem (querer) ser soldado

Terrorismo é, segundo a definição do pesquisador holandês Alex P. Schmid, "um método de acção violenta repetido, inspirando ansiedade, empregue por agentes clandestinos individuais, em grupos, ou estatais (semi-) clandestinos, por razões idiossincráticas, criminosas ou políticas, segundo o qual — por oposição ao assassinato — os alvos directos da violência não são os alvos principais. As vítimas humanas imediatas da violência são geralmente escolhidas ao acaso (alvos de ocasião), ou selectivamente (alvos representativos ou simbólicos), numa população alvo, e servindo de portadores da mensagem. Os processos de comunicação baseados na violência ou na ameaça entre as (organizações) terroristas, as vítimas (potenciais), e os alvos principais são utilizados para manipular o (público) alvo principal, tornando-o um alvo do terror, um alvo de exigências, ou um alvo de atenção, no qual a intimidação, a coerção, ou a propaganda é o principal objectivo" [1]
Os acontecimentos em França no início do ano vieram reacender o debate contra o terrorismo. Vieram lembrar-nos dos atentados no Reino Unido, em 2005, e em Espanha, em 2004. Desconcertante, porém não estranho, é observar que grande parte dos governos que repudiaram os atentados de Paris pelos denominados terroristas são os mesmos que reiteram, convictamente, o seu apoio às ações militares armadas contra esses mesmos supostos terroristas, em países como o Afeganistão e o Iraque. Às armas com as armas, este parece ser o lema por estes dias. Para não deixar escapar o momento, a extrema direita francesa apressou-se a aproveitar os incidentes para trazer para o debate público a questão da pena de morte.
Confesso que temi o conteúdo da edição do jornal Charlie Hebdo na semana após os atentados. O momento, penso, pedia contenção e sensatez. Creio que redação do jornal Charlie Hebdo as teve. Sensato foi também o presidente francês que decidiu não convidar a dirigente do partido da Frente Nacional francesa para a marcha de solidariedade com as famílias dos que morreram a 7 de janeiro.
Sensatas são, ainda, as palavras do primeiro-ministro francês no discurso de 20 de janeiro, que vêm pôr o dedo na ferida num tema que tem sido tratado, propositadamente, de forma superficial. Num tema que gera tantas animosidades, não é expectável que todos estejamos de acordo com as medidas a tomar para nos protegermos da violência, venha ela de onde vier. Não obstante, podemos todos começar por concordar que vivemos tempos delicados. 
Num tom muito mais ameno e cordial do que as declarações do Papa Francisco, proferidas dias antes, Manuel Valls fez um mea culpa, e levou-nos de volta ao ano de 2005, para revivermos os conflitos que tiveram lugar nas periferias de Paris. Também nessa altura se falava de integração e tolerância. 
No discurso de Valls faltou dizer, no entanto, que seria também sensato repensar a política de defesa francesa, bem como as relações diplomáticas com os países estrangeiros. Não podemos esquecer que a França, a pátria dos direitos humanos na Europa, como muita gente a vê, iniciou, em setembro de 2014, bombardeamentos contra bases do suposto Estado Islâmico no Iraque.  Os bombardeamentos aéreos dos chamados “aliados” ocidentais arrastam-se até ao dia de hoje, com o total apoio do atual governo iraquiano, financiado e apoiado por esses mesmos aliados ocidentais. Sobre a relação da França com o Emirado Islâmico do Iraque ou do Levante (EIIL), ver aqui e aqui:

Prosseguindo a sua investigação na direção errada, a imprensa traça o perfil dos terroristas e esquece-se de procurar os seus comanditários. Com ar sério, ela explica que esta vaga de atentados é uma colaboração entre membros da Al-Qaida, no Iémene, e do Daesh, quando as duas organizações se envolveram, desde há um ano, numa guerra feroz, que já provocou pelo menos 3.000 vítimas em ambos os campos.
A este propósito, eu espanto-me por estas referências; em breve, deverão encontrar uma nova que ligue este atentado à Líbia. De facto, se F. Hollande seguisse os passos de George W. Bush ele deveria atacar o Iémene, embora a França não tenha nisso grande interesse. Mas, o seu chefe de Estado-maior particular, o General Puga, prepara actualmente uma nova intervenção militar na Líbia. [2]

As cadeias de televisão internacionais ocidentais já deixaram de falar das mortes de civis no Médio Oriente, especialmente no Iraque. As ONG de defesa de direitos humanos, que poderiam trazer-nos notícias isentas do que está a acontecer ali, saíram de alguns pontos sensíveis do país. Sobrou a ONU, cuja presença depende da boa vontade do governo e é por ele protegida. Militares armados protegem os bunkers onde os funcionários da ONU trabalham, isolados e “protegidos” da população civil ou dos supostos terroristas. As outras notícias vêm de canais não ocidentais.  Os mortos  vão-se transformando em números em relatórios que já a ninguém interessam. 
Não podemos esquecer também, por fim, quem financiou e apoiou (e continua a fazê-lo), os rebeldes sírios aquando dos protestos que começaram em 2011. Em março de 2014, várias agências noticiosas revelaram histórias de testemunhas de treinamento militar dado pelos EUA em 2012 a membros do atual ISIS. Ainda há poucos dias, o porta-voz do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, veio anunciar novo apoio e treinamento aos rebeldes sírios moderados. 
E ainda sobre a obscura ligação dos EUA aos rebeldes da Síria e sobre a sua guerra contra o terrorismo, vale a pena ler este artigo de Thierry Meyssan, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace.
Vivemos tempos conturbados e os tempos atuais pedem pessoas sensíveis, não generais treinados e experientes em táticas de guerra. Pedem pessoas com uma visão global do mundo, que ponha de lado, por um instante que seja, os interesses locais ou nacionais, e não dirigentes políticos autoritários que erguem muros e semeiam o medo em nome da segurança. Os tempos atuais pedem, enfim, pessoas extraordinárias. 
Estaremos nós à altura do nosso tempo? 
________

[1] Alex P. Schmid and Alebert J. Jongman (1988). Political Terrorism: A New Guide To Actors, Authors, Concepts, Data Bases, Theories, And Literature. Transaction Publishers, pp. 1-2 apud Thierry Meyssan (2014). terrorismo visto de Washington”, Rede VoltaireTradução Alva, 5 de maio de 2014
[2] Thierry Meyssan (2015). O Charlie Hebdo tem as costas largas”, Rede VoltaireTradução Alva, 14 de janeiro de 2015.




Atualização a 18/05/2015, às 13h00.

sábado, 8 de novembro de 2014

Da alteridade



Houve um certo dia, alguns anos atrás, em que eu decidi prescindir da Literatura, como estudo académico, em favor da Linguística porque me parecia esta mais perto das pessoas e aquela, de certa forma, elitista e afastada do presente e do real. Decidi isto em pleno coração de África, em Makamba (uma pequena aldeia rural no interior do Burundi), quando alguém, que pela sua nacionalidade e conhecimento histórico deveria compreender bem o conceito de alteridade e diversidade, se riu de mim por eu querer aprender kirundi e não swahili, ou outra língua mais franca e de maior peso ou expressão. Não respondi, como nunca respondo, com medo de me precipitar ou ferir susceptibilidades (que isto das relações pessoais é assunto muito delicado, e eu prefiro sempre manter o diálogo aberto em vez de ter a razão) e fui para casa a pensar.

Naquela altura - e também é assim hoje -, pareceu-me que a experiência de iniciar um contacto, ainda que com um vocabulário limitado e com regras aprendidas de forma rudimentar, com alguém desconhecido, na sua língua materna, é um acontecimento absolutamente extraordinário. Estamos a dizer: "Eu estou a tentar ser teu amigo e este meu desejo de te tocar, de chegar a ti é tão maior e imenso que, não importa as dificuldades que eu tenha de ultrapassar, não vou desistir. Quero conhecer-te no teu mundo". É isto, eu acho, que dizemos quando fazemos um esforço por falar uma língua minoritária. Estamos a dizer que renunciamos ao artificial e forasteiro uso de uma língua franca ou interlíngua, por maiores que sejam as dificuldades, para chegar ao outro, para conhecê-lo na dimensão do seu próprio espaço, no à-vontade e familiaridade da sua língua materna, seja ela qual for. "Gosto tanto de ti que ultrapasso todas as barreiras para poder estar mais perto".

É isto penso que quero dizer quando conheço alguém, principalmente num lugar estranho ao meu.

Por que razão, estando nós cada vez mais perto do outro, nos sentimos e o sentimos cada vez mais longe?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Da maternidade

"Using stories of many women and research data, The Last Taboo counters the motherhood ‘requirement’ and the glorification of motherhood everywhere in the culture, exposing the harm motherhood often inflicta on women (their relationships, careers, self-identify, financies  energy), unwanted children (half of all pregnancies are unplanned), the human species and environment (both threatened by overpopulation). For too long, women have been consignes to a life not suited to all, or even most, women in the modern era, an era reeling under the environmental and human devastation of overpopulation." (http://rosemaryagonito.com)
As questões de género, e especificamente as questões que se relacionam com a maternidade, são para mim questões pessoais que recuso sempre discutir de ânimo leve. Seja porque sou mãe e porque já me vi envolvida, inúmeras vezes (umas mais subtis do que outras), em casos de discriminação devido a esse facto, seja porque cresci numa sociedade que ainda apresenta resquícios de idolatria da máxima "Deus, Pátria e Família" e da divisão clara e inequívoca dos papéis para ambos os géneros: o homem providencia o sustento da casa e a mulher cuida da casa e dos filhos (ainda que a mulher trabalhe, continua a ser atribuída a ela a responsabilidade dos filhos e da casa), o assunto é-me caro. 
Apesar de tudo isto, eu confesso que tenho dificuldade em entender o discurso supostamente feminista que, tentando argumentar contra um sistema patriarcal que reduz a mulher à condição de animal procriador, cai sempre no extremo oposto, argumentando que todos os problemas das mulheres advêm do facto de terem de ser elas a suportar o peso da maternidade. Não consigo encontrar um só argumento que me convença disto, por mais que tente (vd. http://omnispersuasiocarcerest.blogspot.com.es/2009/11/das-questoes-de-genero.html). Não consigo perceber como é que, defendendo o feminismo, conseguimos argumentar a favor do facto de que para termos iguais direitos, temos de ser todos iguais, anulando as diferenças evidentes e inevitáveis de géneros, como se para ter os mesmos direitos que os homens eu tivesse que me assemelhar a ele, recusando e eliminando o facto de ter nascido biologicamente mulher (Sim, sim, as mulheres nascem com um útero, cara Beauvoir). Para mim, é um paradoxo.  
Há tempos, numa aula de literatura, num curso de actualização em ensino de Português Língua Estrangeira, a propósito de feminismo e emancipação das mulheres nas décadas de 60-70, surgiu o tema da maternidade e do casamento. No decorrer da exposição das várias posições, houve uma formanda que partilhou a sua história pessoal dizendo que, a certa altura da sua vida, decidiu suspender o emprego seguro que tinha para poder acompanhar, com os seus filhos, o seu marido nas suas constantes estadias de trabalho no estrangeiro. Não só foi questionada, ali mesmo, a sua opção, como se sentiu como que uma discriminação negativa relativamente à própria maternidade. 
Abro aqui um parêntesis para sublinhar que a discriminação da maternidade em ambiente académico é recorrente, mas continua a ser tema tabu. Perguntem a qualquer mulher que tenha ficado grávida enquanto fazia a sua licenciatura, mestrado ou doutoramento, ou qualquer prova de acesso a empregos ou cargos de maior responsabilidade, o que sentiram por parte de colegas, professores, chefes, juízes, empregadores, etc., quando estes tomaram conhecimento da gravidez. Do olhar de pena e das palavras de consolação, passando pelo olhar de desprezo e de imposição de culpa, do tipo "Tinhas de fazer isso agora?", ou "Acabou-se a tua vida académica/profissional!" até à contundente perda do cargo, da tese ou do orientador, os casos repetem-se. A minha teoria é que cada mulher grávida tem pelo menos um caso de discriminação para contar. 
Um dia antes do curso de que falava acima, cá fora, na hora do almoço, num mesa onde apenas estavam mulheres, alguém comentava, a propósito da recordação do seu tempo de faculdade, o caso de uma professora da faculdade que supostamente teria conseguido o lugar pelo facto de ser casada com um professor já pertencente à universidade. Com a pouca coragem que a minha timidez me permite nestas ocasiões, e interrompendo a conversa, eu perguntei se alguma vez aquela afirmação seria feita em relação a um homem. Pode até acontecer, mas quais seriam as possibilidades de alguém questionar a capacidade profissional de um homem, tendo por base o mesmo argumento? Ali estavam cinco mulheres maduras, quase todas com filhos, quase todas casadas, a contribuir para perpetuar o mesmo tipo de discurso que censuramos à sociedade. 
Mais tarde, naquela mesma aula de literatura, eu, ao perguntar-me se, ao ser atribuída unicamente à mulher a responsabilidade de criar as crianças, não seriam elas mesmas também as únicas responsáveis pela educação machista contra a qual elas próprias se rebelam? E, mais uma vez, tive de render-me às evidências: tinha caído na mesma armadilha, aquele era o meu preconceito. 
As leituras racionais feministas e as experiências de vida, muitas traumáticas, parecem não nos ter ensinado nada.  O que uma outra jovem mulher, solteira e sem filhos, disse, naquela mesma aula de literatura, resume bem o que se passa e que contradiz, no caso da mulher, uma frase bem conhecida de todos: não importa o que fazes, quer penses que podes, quer penses que não podes, quer penses que estás certa ou quer penses que estás errada, a verdade é que se és mulher, estarás sempre, sempre, e sublinho novamente sempre, errada. Este é o ponto principal que deve ser discutido. 
Porque o problema não está na maternidade em si, mas nas condições que a sociedade proporciona para que cada mulher possa fazer a sua escolha em liberdade. Estas condições vão desde a educação de género e sexual desde a mais tenra idade, à divulgação e disponibilização de métodos contraceptivos, até à legislação relativa ao apoio à parentalidade. É urgente desenvolver na sociedade a sensibilidade para o facto de que a gravidez e a educação é um assunto que diz respeito a todos e que não nos podemos arvorar de sermos uma sociedade livre enquanto tivermos mulheres que não possam escolher livremente ser mães, enquanto tivermos mães que lamentam a sua gravidez ou enquanto nos depararmos com discriminação negativa perante a maternidade
E enquanto vivemos no melhor dos mundos possíveis, deixo um apelo ou um mini-manual de boas maneiras para os mais distraídos e distraídas: quando vires uma mulher grávida, a única palavra que deve sair da tua boca é "Parabéns!" ou "Felicidades!". Não importa em que fase da vida ou em que altura profissional ou académica se encontra a mulher. Qualquer outra coisa parecida com pena, condescendência ou desprezo, como em qualquer situação, é reprovável e só te prejudica a ti  enquanto ser membro da espécie humana. Se sentirem intimidade com os pais grávidos, podem sempre dizer, se for mesmo sincero: "Estou aqui para ajudar no que for necessário.". E se sentirem simplesmente total aversão pelo assunto do cuidar, bebés, pais, mães,  etc., então deixem o assunto para quem sabe e para quem se importa e... calem-se e fujam. A sério, desapareçam. Ninguém é obrigado a conviver com deficientes emocionais!
É tudo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Repensar a Europa a partir do Sul

Em ano de eleições europeias, é urgente repensar o modelo europeu que queremos para nós e o papel que queremos ter dentro da União Europeia. Estaremos nós preparados para defender esse modelo e esse papel?





Imagens: Fotografias da obra de Judi Wertheins, intitulada "El norte no va a estar arriba, va a ser todo sur", tiradas em 2012 no bar da Universidade de Oslo. A obra de Wertheins consiste numa série de faixas de protesto usadas por estudantes na Universidade de Buenos Aires. O argentino foi um dos quatro artistas convidados pela Universidade de Oslo a criar obras únicas para o evento "History Forms My Revolution", comemorativo dos 200 anos da cidade de Oslo, em 2011 (ver http://www.uio.no/om/aktuelt/utstillinger/galleri-sverdrup/2011/judi-werthein.html e https://www.facebook.com/events/257235087653457/).


Página oficial do projecto Ulisses: http://www.projetoulisses.net/